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Experimente
insistir em pagar à vista uma compra num shopping ou na loja
da esquina. O vendedor tentará mostrar que não vale
a pena e dirá que é vantagem pagar em 3 ou mais vezes,
porque o preço é o mesmo: "não" tem
juros. Vendedor e loja bonzinhos? Não. Simplesmente o melhor
negócio legal hoje no País é a agiotagem: vender
dinheiro disfarçado de produto (como nos financiamentos)
ou diretamente, por meio de empréstimos pessoais ou cheque
especial, por exemplo. O resultado disso é que hoje o maior
peso no salário de um trabalhador de baixa renda vem exatamente
dos juros. Ele perde até 35,43% dos seus ganhos mensais com
pagamento de juros. Gasta mais com juros que com alimento (19,35%)
ou moradia (27,44%).
Os juros médios estão em 8,45%. Mas exatamente os
créditos mais usados pela população são
os mais extorsivos: 10,67% (cartão de crédito) e 9,79%
(cheque especial), segundo pesquisa da Associação
Nacional dos Executivos de Finanças, Administração
e Contabilidade (Anefac). As campeãs da agiotagem são
as financeiras que fazem empréstimo pessoal. Cobram, em média,
12,93% ou 330,24% ao ano. Há casos de financeiras que cobram
mais de 20% ao mês de juros.
Irreal
- As explicações para essa exorbitância são
inadimplência, risco, etc., nunca a ganância. Como se
fosse possível a alguém que pega um empréstimo
com juros de 20% ou 10% ao mês conseguir pagar. Fica a pergunta:
os juros são altos porque ninguém paga ou ninguém
paga porque são altos?
A verdade é que os juros vêm destruindo a renda dos
trabalhadores. De acordo com a segunda pesquisa feita pelo presidente
da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, quem ganha R$ 1.000 por mês
está pagando até R$ 354,30 de juros a bancos, lojas,
financeiras. Entre R$ 1.000 e R$ 2.000, as despesas financeiras
chegam a 33,62% dos ganhos. Já para quem ganha mais de R$
10.000 por mês, os juros levam 19,08% da receita. Ou seja,
a política de juros é perversa, tira proporcionalmente
mais de quem ganha menos. Mas vem tirando muito de todos.
Efeito
devastador - Nos últimos anos, a média dos juros ficou
em 8,75% ao mês, enquanto quem aplica o dinheiro no banco
ganhou no período perto de 1% ao mês. Para ter noção
do que isso representa num orçamento doméstico, veja
o exemplo:
Em 1995, você passou em frente ao posto, mas, em vez de usar
seus R$ 10 para abastecer seu carro Uno Mille com 17 litros de gasolina,
decidiu ir ao banco e aplicar o dinheiro. Voltou ao banco agora
e sacou a aplicação, R$ 25,40. Foi ao posto e descobriu
que seu dinheiro hoje só dá para pouco mais de 12
litros de gasolina.
No mesmo ano de 1995, seu vizinho fez o caminho inverso: foi ao
banco, pediu R$ 10 emprestados e abasteceu o carro com os 17 litros
de gasolina que esse dinheiro podia comprar. Agora, voltou ao banco
para pagar e teve uma crise: está devendo não o equivalente
aos 17 litros de combustível, mas quase dois Unos Mille zero,
ou R$ 26.555.
Receita
elevada - No primeiro semestre, bancos e financeiras emprestaram
ao consumidor R$ 160,1 bilhões, com média de R$ 26,68
bilhões por mês. Como cerca de R$ 75 bilhões
em média estão todo mês na mão dos consumidores
(créditos novos e saldos dos meses anteriores) e mais da
metade desses (54%) é feita via cheque especial, só
essa modalidade pode ter levado no semestre cerca de R$ 44 bilhões
dos trabalhadores e todos aqueles que ficaram negativos.
Nas demais formas de crédito, considerando-se uma taxa média
de 8,45%, os consumidores gastaram mais R$ 17,49 bilhões
com juros de janeiro a junho. No total, podem ter transferido para
bancos, financeiras e lojas mais de R$ 61 bilhões em juros.
Roberto
do Nascimento
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