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CRÉDITO

Juros levam um terço do seu salário.

Quinta-feira, 17 de julho de 2003, 12:02h
Experimente insistir em pagar à vista uma compra num shopping ou na loja da esquina. O vendedor tentará mostrar que não vale a pena e dirá que é vantagem pagar em 3 ou mais vezes, porque o preço é o mesmo: "não" tem juros. Vendedor e loja bonzinhos? Não. Simplesmente o melhor negócio legal hoje no País é a agiotagem: vender dinheiro disfarçado de produto (como nos financiamentos) ou diretamente, por meio de empréstimos pessoais ou cheque especial, por exemplo. O resultado disso é que hoje o maior peso no salário de um trabalhador de baixa renda vem exatamente dos juros. Ele perde até 35,43% dos seus ganhos mensais com pagamento de juros. Gasta mais com juros que com alimento (19,35%) ou moradia (27,44%).

 
Os juros médios estão em 8,45%. Mas exatamente os créditos mais usados pela população são os mais extorsivos: 10,67% (cartão de crédito) e 9,79% (cheque especial), segundo pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). As campeãs da agiotagem são as financeiras que fazem empréstimo pessoal. Cobram, em média, 12,93% ou 330,24% ao ano. Há casos de financeiras que cobram mais de 20% ao mês de juros.

Irreal - As explicações para essa exorbitância são inadimplência, risco, etc., nunca a ganância. Como se fosse possível a alguém que pega um empréstimo com juros de 20% ou 10% ao mês conseguir pagar. Fica a pergunta: os juros são altos porque ninguém paga ou ninguém paga porque são altos?
A verdade é que os juros vêm destruindo a renda dos trabalhadores. De acordo com a segunda pesquisa feita pelo presidente da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, quem ganha R$ 1.000 por mês está pagando até R$ 354,30 de juros a bancos, lojas, financeiras. Entre R$ 1.000 e R$ 2.000, as despesas financeiras chegam a 33,62% dos ganhos. Já para quem ganha mais de R$ 10.000 por mês, os juros levam 19,08% da receita. Ou seja, a política de juros é perversa, tira proporcionalmente mais de quem ganha menos. Mas vem tirando muito de todos.

Efeito devastador - Nos últimos anos, a média dos juros ficou em 8,75% ao mês, enquanto quem aplica o dinheiro no banco ganhou no período perto de 1% ao mês. Para ter noção do que isso representa num orçamento doméstico, veja o exemplo:
Em 1995, você passou em frente ao posto, mas, em vez de usar seus R$ 10 para abastecer seu carro Uno Mille com 17 litros de gasolina, decidiu ir ao banco e aplicar o dinheiro. Voltou ao banco agora e sacou a aplicação, R$ 25,40. Foi ao posto e descobriu que seu dinheiro hoje só dá para pouco mais de 12 litros de gasolina.


No mesmo ano de 1995, seu vizinho fez o caminho inverso: foi ao banco, pediu R$ 10 emprestados e abasteceu o carro com os 17 litros de gasolina que esse dinheiro podia comprar. Agora, voltou ao banco para pagar e teve uma crise: está devendo não o equivalente aos 17 litros de combustível, mas quase dois Unos Mille zero, ou R$ 26.555.

Receita elevada - No primeiro semestre, bancos e financeiras emprestaram ao consumidor R$ 160,1 bilhões, com média de R$ 26,68 bilhões por mês. Como cerca de R$ 75 bilhões em média estão todo mês na mão dos consumidores (créditos novos e saldos dos meses anteriores) e mais da metade desses (54%) é feita via cheque especial, só essa modalidade pode ter levado no semestre cerca de R$ 44 bilhões dos trabalhadores e todos aqueles que ficaram negativos.

Nas demais formas de crédito, considerando-se uma taxa média de 8,45%, os consumidores gastaram mais R$ 17,49 bilhões com juros de janeiro a junho. No total, podem ter transferido para bancos, financeiras e lojas mais de R$ 61 bilhões em juros.

Roberto do Nascimento

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Fonte :
Da equipe do DiárioNet